domingo, 22 de setembro de 2013

E agora Jose?

Ives Gandra: José Dirceu foi condenado sem provas

publicado em 22 de setembro de 2013 às 17:39
 
Ives Gandra: "Do ponto de vista jurídico, eu não aceito a teoria do domínio do fato. A teoria que sempre prevaleceu no Supremo foi a do na dúvida pró-réu"
MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
O ex-ministro José Dirceu foi condenado sem provas. A teoria do domínio do fato foi adotada de forma inédita pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para condená-lo.
Sua adoção traz uma insegurança jurídica “monumental”: a partir de agora, mesmo um inocente pode ser condenado com base apenas em presunções e indícios.
Quem diz isso não é um petista fiel ao principal réu do mensalão. E sim o jurista Ives Gandra Martins, 78, que se situa no polo oposto do espectro político e divergiu “sempre e muito” de Dirceu.
Com 56 anos de advocacia e dezenas de livros publicados, inclusive em parceria com alguns ministros do STF, Gandra, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, diz que o julgamento do escândalo do mensalão tem dois lados.
Um deles é positivo: abre a expectativa de “um novo país” em que políticos corruptos seriam punidos.
O outro é ruim e perigoso pois a corte teria abandonado o princípio fundamental de que a dúvida deve sempre favorecer o réu.
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Folha – O senhor já falou que o julgamento teve um lado bom e um lado ruim. Vamos começar pelo primeiro.
Ives Gandra Martins - O povo tem um desconforto enorme. Acha que todos os políticos são corruptos e que a impunidade reina em todas as esferas de governo. O mensalão como que abriu uma janela em um ambiente fechado para entrar o ar novo, em um novo país em que haveria a punição dos que praticam crimes. Esse é o lado indiscutivelmente positivo. Do ponto de vista jurídico, eu não aceito a teoria do domínio do fato.
Por quê?
Com ela, eu passo a trabalhar com indícios e presunções. Eu não busco a verdade material. Você tem pessoas que trabalham com você. Uma delas comete um crime e o atribui a você. E você não sabe de nada. Não há nenhuma prova senão o depoimento dela -e basta um só depoimento. Como você é a chefe dela, pela teoria do domínio do fato, está condenada, você deveria saber. Todos os executivos brasileiros correm agora esse risco. É uma insegurança jurídica monumental. Como um velho advogado, com 56 anos de advocacia, isso me preocupa. A teoria que sempre prevaleceu no Supremo foi a do “in dubio pro reo” [a dúvida favorece o réu].
Houve uma mudança nesse julgamento?
O domínio do fato é novidade absoluta no Supremo. Nunca houve essa teoria. Foi inventada, tiraram de um autor alemão, mas também na Alemanha ela não é aplicada. E foi com base nela que condenaram José Dirceu como chefe de quadrilha [do mensalão]. Aliás, pela teoria do domínio do fato, o maior beneficiário era o presidente Lula, o que vale dizer que se trouxe a teoria pela metade.
O domínio do fato e o “in dubio pro reo” são excludentes?
Não há possibilidade de convivência. Se eu tiver a prova material do crime, eu não preciso da teoria do domínio do fato [para condenar].
E no caso do mensalão?
Eu li todo o processo sobre o José Dirceu, ele me mandou. Nós nos conhecemos desde os tempos em que debatíamos no programa do Ferreira Netto na TV [na década de 1980]. Eu me dou bem com o Zé, apesar de termos divergido sempre e muito. Não há provas contra ele. Nos embargos infringentes, o Dirceu dificilmente vai ser condenado pelo crime de quadrilha.
O “in dubio pro reo” não serviu historicamente para justificar a impunidade?
Facilita a impunidade se você não conseguir provar, indiscutivelmente. O Ministério Público e a polícia têm que ter solidez na acusação. É mais difícil. Mas eles têm instrumentos para isso. Agora, num regime democrático, evita muitas injustiças diante do poder. A Constituição assegura a ampla defesa -ampla é adjetivo de uma densidade impressionante. Todos pensam que o processo penal é a defesa da sociedade. Não. Ele objetiva fundamentalmente a defesa do acusado.
E a sociedade?
A sociedade já está se defendendo tendo todo o seu aparelho para condenar. O que nós temos que ter no processo democrático é o direito do acusado de se defender. Ou a sociedade faria justiça pelas próprias mãos.
Discutiu-se muito nos últimos dias sobre o clamor popular e a pressão da mídia sobre o STF. O que pensa disso?
O ministro Marco Aurélio [Mello] deu a entender, no voto dele [contra os embargos infringentes], que houve essa pressão. Mas o próprio Marco Aurélio nunca deu atenção à mídia. O [ministro] Gilmar Mendes nunca deu atenção à mídia, sempre votou como quis.
Eles estão preocupados, na verdade, com a reação da sociedade. Nesse caso se discute pela primeira vez no Brasil, em profundidade, se os políticos desonestos devem ou não ser punidos. O fato de ter juntado 40 réus e se transformado num caso político tornou o julgamento paradigmático: vamos ou não entrar em uma nova era? E o Supremo sentiu o peso da decisão. Tudo isso influenciou para a adoção da teoria do domínio do fato.
Algum ministro pode ter votado pressionado?
Normalmente, eles não deveriam. Eu não saberia dizer. Teria que perguntar a cada um. É possível. Eu diria que indiscutivelmente, graças à televisão, o Supremo foi colocado numa posição de muitas vezes representar tudo o que a sociedade quer ou o que ela não quer. Eles estão na verdade é na berlinda. A televisão põe o Supremo na berlinda. Mas eu creio que cada um deles decidiu de acordo com as suas convicções pessoais, em que pode ter entrado inclusive convicções também de natureza política.
Foi um julgamento político?
Pode ter alguma conotação política. Aliás o Marco Aurélio deu bem essa conotação. E o Gilmar também. Disse que esse é um caso que abala a estrutura da política. Os tribunais do mundo inteiro são cortes políticas também, no sentido de manter a estabilidade das instituições. A função da Suprema Corte é menos fazer justiça e mais dar essa estabilidade. Todos os ministros têm suas posições, políticas inclusive.
Isso conta na hora em que eles vão julgar?
Conta. Como nos EUA conta. Mas, na prática, os ministros estão sempre acobertados pelo direito. São todos grandes juristas.
Como o senhor vê a atuação do ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso?
Ele ficou exatamente no direito e foi sacrificado por isso na população. Mas foi mantendo a postura, com tranquilidade e integridade. Na comunidade jurídica, continua bem visto, como um homem com a coragem de ter enfrentado tudo sozinho.
E Joaquim Barbosa?
É extremamente culto. No tribunal, é duro e às vezes indelicado com os colegas. Até o governo Lula, os ministros tinham debates duros, mas extremamente respeitosos. Agora, não. Mudou um pouco o estilo. Houve uma mudança de perfil.
Em que sentido?
Sempre houve, em outros governos, um intervalo de três a quatro anos entre a nomeação dos ministros. Os novos se adaptavam à tradição do Supremo. Na era Lula, nove se aposentaram e foram substituídos. A mudança foi rápida. O Supremo tinha uma tradição que era seguida. Agora, são 11 unidades decidindo individualmente.
E que tradição foi quebrada?
A tradição, por exemplo, de nunca invadir as competências [de outro poder] não existe mais. O STF virou um legislador ativo. Pelo artigo 49, inciso 11, da Constituição, Congresso pode anular decisões do Supremo. E, se houver um conflito entre os poderes, o Congresso pode chamar as Forças Armadas. É um risco que tem que ser evitado. Pela tradição, num julgamento como o do mensalão, eles julgariam em função do “in dubio pro reo”. Pode ser que reflua e que o Supremo volte a ser como era antigamente. É possível que, para outros [julgamentos], voltem a adotar a teoria do “in dubio pro reo”
Por que o senhor acha isso?
Porque a teoria do domínio do fato traz insegurança para todo mundo.
Leia também:
Luiz Moreira: STF legitimou todas as ditaduras brasileiras
Bandeira de Mello: “Espero que os embargos ajudem a mitigar injustiças”

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Enfim os médicos Cubanos chegaram!

Depois de visitá-los, repórter pergunta: Onde está a blindagem dos médicos cubanos?

publicado em 18 de setembro de 2013 às 9:34

Na região de Belém, médicas cubanas comemoram o aniversário de colega
Onde está a blindagem dos médicos cubanos?
por Dario de Negreiros*, de Belém, especial para o Viomundo
Algumas notícias deixam especialmente preocupado um repórter que viaja para longe. “Assessor interrompe entrevista de médica cubana em Tocantins”, diz uma matéria do portal Terra, com vídeo e tudo“Ministério ‘blinda’ médicos estrangeiros em São Paulo”, conta o Estadão. “Isso não é normal. Qual o medo? Qual o receio?”, questiona-me um amigo paulista, médico, pelo chat do Facebook. Eu, do Pará, começo a imaginar as desculpas que terei de dar ao meu editor quando voltar de viagem com meia dúzia de declarações dos tais dos cubanos, todas elas colhidas – por sorte, creio – na confusão de um desembarque na Base Aérea de Belém.
No domingo, dia em que vi o vídeo do Terra, haveria um evento no hotel onde estão hospedados todos os cubanos que vieram ao Pará. Lá, oficialmente, participam de uma “semana de acolhimento”. Na prática, como se sabe, o governo federal ganha tempo enquanto tenta resolver o imbróglio jurídico que envolve os seus registros nos CRMs (Conselhos Regionais de Medicina). “O secretário de saúde estará lá. Amanhã vai ser quente!”, diz, ao celular, um repórter paraense. É tudo o que eu não quero: jornais, televisões, autoridades locais à solta e os cubanos, imagino, blindados.
Em vez de ir ao evento “quente”, ligo para a assessora da secretaria de saúde do Pará: “Me perdi para chegar a Mosqueiro [ilha fluvial, nos arredores de Belém, onde fica o hotel]. Posso ir amanhã?”. Ser o único jornalista no local, andando livremente pelo hotel, conversar com os médicos longe das câmeras e das autoridades, parece-me uma boa estratégia.
Mas não havia blindagem alguma. Ao contrário, as assessoras, simpáticas ao extremo, facilitam de todas as formas meu trabalho. Para melhorar, minha estratégia não podia ser mais bem sucedida. Sendo o único repórter no local, posso acompanhar os médicos nas palestras, conversar tranquilamente nas varandas de seus chalés, encontrá-los no salão de jantar, entrevistá-los, relaxados, à beira da piscina do hotel. Ninguém, evidente, conversa à vontade na presença de câmeras de TV, fotógrafos de jornal e secretários de Estado, com seus auxiliares e assessores andando pra lá e pra cá.
É verdade que há uma certa homogeneidade incômoda no discurso destes profissionais, todos eles submetidos aos termos do convênio firmado pelo governo brasileiro, via Opas (Organização Pan-americana da Saúde), com Cuba. Nesta reportagem, procuro mostrar que, em situações mais informais, suas vozes chegam a expor algumas dissonâncias, mas nenhuma capaz de desfazer o uníssono fundamental. “Solidariedade” e “internacionalismo” formam um leitmotiv cujo volume nunca diminui. Se estes cantores têm liberdade interpretativa ou se são regidos por alguma batuta invisível, que julgue o leitor.

Em treinamento

“Mucho diñero!”
É com atenção que os 62 médicos cubanos assistem à palestra do também médico Raimundo Sena, diretor da Escola Técnica do SUS (Sistema Único de Saúde). Sena fala pausadamente e os alunos, juntos, complementam: “Estes são os obje…?”: “…tivos!”. É assim o tempo todo, de forma que, tanto quanto nas entrevistas, ressoa na sala um coro de uma só voz. Se alguma bagunça irrompe – como quando Sena diz que no Brasil “o pessoal usa muita sigla”, ao que os cubanos riem vigorosamente –, surge rápido um “ssshhhhhh” e o silêncio se restabelece.
“A dificuldade maior é a comunicação, por causa da língua”, conta o professor. “Mas eles não têm dificuldade de compreensão do que se está discutindo, porque eles têm uma formação elevada. A grande maioria, além da graduação, tem especialização, alguns têm mestrado, doutorado. Isso facilita o diálogo”, afirma.
Mas há no ar uma tensão facilmente perceptível. “Eles estão ansiosos porque têm dificuldades de comunicação com Cuba, com seus familiares”, confirma Sena. De fato, quando acaba a aula, é este o único assunto. A assessora da secretaria de saúde paraense diz que lhes trará quatro notebooks, três modems e um celular com roaming internacional desbloqueado. Os cubanos explicam que, de Cuba, não se pode fazer chamadas internacionais. Os assessores, então, ligam para a operadora, consultam a tarifa da ligação para Cuba e voltam com a resposta: não será possível garantir o contato telefônico. “Custa R$4,99 por minuto! Mucho diñero!”.
Diante do único computador da sala, os médicos formam uma longa fila. Começo a conversar com um deles, que me parece bastante aflito. Compadecido, ofereço-lhe meu celular. “Quanto custa?”. Esse não é mais vendido – respondo. Esse é velho. “Mas quanto custa?”. Com a tampa traseira rachada, assim? Sei lá, uns duzentos reais – digo, chutando. “Quer vender agora?”.
É inacreditável, mas em um programa de tamanha importância para os governos brasileiro e cubano, a simples comunicação telefônica com os familiares daqueles que protagonizam a ação não foi garantida. Os assessores se preocupam, em especial, com uma das médicas, cuja filha de dois anos e meio está em Cuba. No dia anterior, ela teria “entrado em pânico”, dizem, com a dificuldade de comunicação.

Rene (acima) e o casal Yusmel-Lisset

René, Yusmel e Lisset
É na varanda de seu chalé que converso tranquilamente com René Alberto Marrero Fernandez, 41, formado na Faculdade de Medicina de Holguín. Pergunto-lhe sobre um assunto amplamente debatido na chamada grande mídia: qual é, afinal, o destino da bolsa de R$10 mil paga, por médico, pelo governo federal?
Eis a resposta mais frequente: “este dinheiro vai, quase por inteiro, para o governo cubano; para mim, resta apenas um estipêndio mensal, o suficiente para me manter no país. Fora isso, meu salário, em Cuba, continua sendo integralmente recebido pela minha família”. Ou seja: quase todos os médicos negam que as missões internacionais sejam uma oportunidade de fazer um pé-de-meia.
René, entretanto, responde de modo um pouco diferente. “Em missões internacionais, recebemos uma compensação”, admite. “Fora isso, ajudamos um pouco a economia de Cuba, que – e isso não é segredo pra ninguém – é um país pobre. Ademais, estamos bloqueados pelo imperialismo. O embargo econômico é muito grande. Com este trabalho, melhoramos também a economia do nosso povo, que tanto necessita.”
As referências às dificuldades econômicas dão ensejo à formação de outra polifonia consonante: todos fazem questão de dizer que, em Cuba, não existe nem pobreza extrema, nem diferenças sociais importantes. “É um tema muito complicado, a economia de Cuba”, diz René. “Mas, em meu país, a pobreza extrema não existe. A saúde é totalmente gratuita para todos, assim como a educação.”
E onde não há pobreza extrema ou grandes diferenças de renda, não há violência urbana. Mais cedo, ainda durante a palestra, dois policiais militares, armados e com coletes à prova de balas, entram na sala para conversar com uma das assessoras. Esta, posteriormente, faz questão de tranquilizar a classe. “Não se preocupem. Eles só vieram aqui para dizer que, ao lado do hotel, há uma invasão, uma favela. Então, por favor, após as 21h não saiam do hotel.”
“Isso não existe, para nós”, conta Yusmel Reve, 36. “Em Cuba, você pode sair para qualquer lugar, a qualquer hora.” A médica Lisset Guerra, 33, emenda: “Sozinho!”. E Yusmel: “E não tem problema”. E Lisset: “Não acontece nada”.
Yusmel e Lisset são casados há sete anos. Juntos, estiveram também durante cinco anos em missão na Venezuela, onde garantem já terem se acostumado às limitações das restrições de segurança. “Lá, a partir das 18h já não se podia sair”, conta Lisset.
Tanto Yusmel quanto Lisset são professores de medicina: Yusmel é mestre em atenção integral à criança e Lisset, em urgências médicas. Além disso, ambos possuem pós-graduação em medicina de desastre. Das missões de que ambos participaram, a mais importante ocorreu, justamente, em meio a uma catástrofe. No dia 8 de outubro de 2005, um terremoto de 7,8 graus na escala Richter deixaria mais de 80 mil mortos na região da Caxemira. 2.564 médicos cubanos foram, então, enviados ao Paquistão.

O alojamento, antes de seguir viagem para o interior. Muitos médicos cubanos vão ficar bem isolados.

Maribéis
Saindo da sala de aula, apresento-me às duas médicas que mais queria conhecer: as Maribéis. Maribel Herrera Hernandez, 43, e Maribel Morera Saborat, 44, foram escolhidas para trabalhar na paupérrima Melgaço, no Arquipélago do Marajó. Quando, depois de 18 horas de viagem de barco, elas chegarem aos seus postos de trabalho, serão recebidas, se não por mais ninguém, ao menos por mim. Pois é Melgaço, município com o pior IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) do Brasil, que escolhemos para acompanhar o início do Mais Médicos.
Que não haveria blindagem alguma, já havia percebido. Mas não poderia imaginar que elas fossem tão simpáticas e receptivas. “Amigas, vejam só, nós teremos um jornalista particular”, brincam. E caminhamos até a varanda do chalé, onde fazemos a entrevista. De longe, as amigas brincam, enquanto elas posam para as fotos: “Vizinhas, a publicidade vai acabar com vocês!”, divertem-se.
“Antes de chegar, já sabíamos que o povo era muito pobre, que o índice de analfabetismo era muito alto”, conta Maribel, a Herrera Hernandez. “Não obstante, não nos amedrontamos com isso, ao contrário: vamos com muito mais desejo de mudar as condições de saúde dessa população”, diz. “Ou, pelo menos, de fazer o pouquinho que nós podemos fazer.”
É curioso: em Tocantins, o assessor do Ministério da Saúde teria provocado uma “interrupção abrupta” na entrevista – diz a vídeo-reportagem – justamente “quando uma jornalista brasileira perguntava à médica sobre o conhecimento dela sobre a realidade do Tocantins”. Sobre este assunto, todos os médicos com quem conversei, sem exceção, se mostraram particularmente à vontade para dissertar. Um deles me contou que, ainda em Cuba, fora-lhes exibido o filme “Ilha das flores”, de Jorge Furtado – talvez um dos mais conhecidos e contundentes documentos audiovisuais sobre a pobreza extrema brasileira.
“Sabemos que as principais problemas de saúde que existem em Melgaço são as doenças infectocontagiosas, que são as que mais podem ser prevenidas”, conta a outra Maribel, a Morera Saborat. “Ou seja: melhorando as condições ambientais, com medidas de higiene, de educação sanitária, podemos prevenir essas doenças. Sobretudo a tuberculose, a hanseníase e a malária. São doenças que, com determinadas medidas de educação da população, pode-se erradicar ou, ao menos, diminuir bastante seu índice de incidência”, garante. “E também vamos tratar as doenças crônicas que existem, sobretudo hipertensão e diabetes, que são as mais frequentes.” E resumindo suas expectativas – que não são baixas – afirma: “Então, acreditamos que sim: que com o nosso modesto trabalho vamos ajudar a aumentar o nível de saúde do povo de Melgaço”.
Assustou-me saber, digo-lhes em seguida, que enquanto ainda estão em um hotel da região metropolitana de Belém, não passado sequer um mês de viagem ao Brasil, a comunicação com Cuba e as saudades da família já tinham se tornado problemas tão grandes para eles. Como seria, então, passar três anos em pequenas cidades do interior do Pará?
“Nós temos uma formação, desde que começamos a estudar medicina, pautada na colaboração e no internacionalismo”, explica Saborat, lembrando-me que já esteve por quatro anos na missão venezuelana. “Veremos, dentro das possibilidades que existem em Melgaço, como podemos nos comunicar.”
“A nossa família também conhece este nosso princípio de solidariedade, e compartilha dele”, completa Hernandez, que já trabalhou em missões por dois anos na Venezuela e por 14 meses na Bolívia. Em Cuba, ambas têm à sua espera marido e dois filhos. “Eles entendem quando não podemos nos comunicar continuamente. Esperam, sim, ansiosos. Mas entendem que é a situação do momento.”
Não é à toa que Melgaço receberá duas Maribéis. Esta, aliás, é uma característica que chama logo a atenção de quem bate os olhos na lista de alocações dos médicos cubanos: não é possível depreender dela nenhuma outra ordem que não seja a alfabética. Logo, conclui-se: salvo casos especiais, os médicos não parecem dar qualquer palpite sobre o lugar em que trabalharão. Em dado momento, perguntei para um deles: “Vocês não escolhem a cidade?”. Respondeu-me com uma gargalhada.
“E nós não estamos com medo, como alguns têm dito, das condições do lugar ou de quão longe eles sejam”, afirma Hernandez. “Ao contrário, é um incentivo para nós: temos de nos esforçar um pouco mais em nossa ajuda.” E Saborat completa: “Vemos as pessoas como seres humanos, não como mercadoria.”
Dizendo-me isso, olhando-me nos olhos, estas mulheres me fazem lembrar de Lorenzo Nacheli, um missionário italiano que há anos passa sua vida, vinte e quatro horas por dia, cuidando de pessoas em situação de rua, no Arsenal da Esperança, em São Paulo. “Quando estou conversando com você, Dario”, dizia-me Lorenzo, “você é a pessoa mais importante do mundo para mim. E é assim com todas as pessoas com quem converso”. Agora, na minha lembrança, por uma dessas inversões que a gente não explica, são os olhos de Lorenzo que me lembram os olhos das Maribéis, como se tivesse visto estes antes daquele. “Nos vemos em Melgaço”, despeço-me.
Não sei até onde vai a perspicácia e em que ponto começa a inocência do repórter, mas me parece ser necessário muito esforço para abstrair destas falas o tom opressivo e castrador de um discurso previamente combinado. De qualquer maneira, contenho-me: como disse, cabe ao leitor tirar as suas conclusões.
*Dario de Negreiros viaja financiado pelos leitores do Viomundo. Para nos ajudar a produzir mais conteúdo exclusivo como este, clique aqui.
  • Direto do site Viomundo

domingo, 8 de setembro de 2013

Imóveis pequenos são aposta de incorporadoras em São Paulo


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Incorporadoras apostam em imóveis pequenos11 fotos

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Construtoras e incorporadoras estão investindo no mercado de imóveis pequenos. Na imagem, perspectiva de apartamento do BK30, empreendimento da incorporadora BKO no Alto da Boa Vista, em São Paulo Leia mais Divulgação
Incorporadoras que atuam na cidade de São Paulo estão direcionando seus negócios para imóveis pequenos e com boa localização.
A incorporadora Huma nasceu com o objetivo de oferecer imóveis de alto padrão e baixa metragem. O primeiro empreendimento será lançado em setembro na Chácara Klabin, na zona sul de São Paulo, perto de uma estação de metrô. Todos os compradores vão ganhar uma bicicleta dobrável. A ideia é que eles possam deixar o carro na garagem.
"O preço do metro quadrado subiu muito. A pessoa que conseguia comprar um apartamento de 80 m² há cinco anos hoje consegue comprar só um de 50 m². Por isso hoje muita gente topa morar num espaço menor se ele tiver mais charme e for perto do trabalho", diz Rafael Rossi, fundador da empresa.
Os apartamentos do prédio têm de 44m² a 66m² (fora as coberturas, que chegam a 124m²). Os imóveis menores têm um quarto, uma sala e uma cozinha, mas podem ser transformados em quitinetes (ou estúdios, como as empresas costumam chamar), que unem todos os cômodos em um só ambiente.
O metro quadrado sai a partir de R$ 11 mil. Um imóvel de 44m² custará, assim, cerca de R$ 484 mil. A Huma lançará mais dois empreendimentos do tipo no bairro do Itaim. 

Perto de bairros nobres e com vários serviços

Os imóveis pequenos também estão no foco da incorporadora BKO. A empresa acaba de lançar, no Alto da Boa Vista, zona sul de São Paulo, o BK30. O número no nome do empreendimento tem uma função: dar uma ideia da metragem dos apartamentos, que têm, na verdade, 32m² de área útil.
"Dois anos atrás, identificamos que haveria uma grande demanda por imóveis compactos no mercado e essa passou a ser nossa estratégia", diz Mário Giangrande, diretor-superintendente da BKO.
O objetivo é fazer lançamentos sempre próximos de bairros nobres. O Alto da Boa Vista, por exemplo, fica perto de Moema. Outro lançamento será na Bela Vista, perto dos Jardins. "Assim, podemos oferecer imóveis de preço acessível tanto para quem compra como para quem for alugar depois", afirma Giangrande.
Os condomínios vão oferecer uma série de serviços para os moradores, especialmente aqueles que passam o dia fora de casa. Entre as opções estarão os serviços de arrumação e concierge (que ficará responsável, entre outras coisas, por levar e buscar roupas da lavanderia).
No empreendimento já lançado, o preço do metro quadrado parte de R$ 9.500. Um apartamento de 32m² sairia por pelo menos R$ 304 mil. Mais de 65% das unidades já foram vendidas.
Aiana Freitas
Do UOL, em São Paulo

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Sinais de que o imóvel é uma 'furada'5 fotos

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Evite imóveis em regiões movimentadas. Não acredite que "com o tempo se acostuma" com o trânsito pesado. Congestionamentos são duplamente ruins. Primeiro, porque dificultam o acesso até a sua casa e, segundo, por causa do barulho. Antes de fechar o negócio, visite a casa ou apartamento em pelo menos três horários diferentes para checar como é o movimento na área Leia mais Gabriel de Paiva/Agência O Globo

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

No Ceara, médicos so vão ao hospital de jatinho


247 – O hospital regional de Sobral, que custou R$ 227 milhões ao governo do Ceará e foi inaugurado com um show de R$ 650 mil de Ivete Sangalo, precisa ‘importar’ médicos de Fortaleza para funcionar.
O governo Cid Gomes (PSB) não conseguiu contratar profissionais que morem na cidade, terceira maior do Ceará, e desde então paga táxi aéreo para médicos atenderem no local.
Aviões saem de Fortaleza até quatro dias por semana levando médicos para Sobral, (a 232 km de distância). Segundo a Folha, a administração diz que o custo dos voos gira em torno de R$ 3 mil semanais para dois médicos por dia, três a quatro vezes por semana.
"O médico impõe condições, a estrada até lá é horrível. Sem avião, o pessoal não vai", disse o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, José Maria Pontes.
Pontes foi o responsável pelo protesto contra médicos cubanos do Programa Mais Médicos de Dilma Rousseff, ocorrido na terça-feira (27) em Fortaleza e que envergonhou o país (Leia aqui). “A vaia, na verdade, foi para aquelas pessoas que tiveram a ideia absurda de trazer esses médicos para cá, inclusive com trabalho escravo sem nenhum compromisso a não ser com o compromisso ideológico do Partido dos Trabalhadores”, disse ele sobre o episódio.

do blog Brasil247.