segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sabe o que aconteceu com a turma dos Correios?

Cardozo, Donato e a fábula da classe dominante, artigo de Paulo Moreira Leite

DA ISTOÉ

CARDOZO, DONATO E A FABULA DA CLASSE DOMINANTE

Já está em curso acelerado articulação para inverter papéis e responsabilidades no propinoduto tucano e na máfia dos fiscais

Por Paulo Moreira Leite
Determinados episódios tem o poder de revelar toda estrutura da sociedade em que vivemos, mostrando quem tem o poder de verdade – e quem tem acesso, somente, a brechas e migalhas.

Estou falando da denúncia sobre o propinoduto do PSDB. O caso ficou adormecido quinze anos nas gavetas do Ministério Público e da Justiça de São Paulo. Pedidos das autoridades do paraíso fiscal suíço foram arquivados. Inquéritos eram abertos e fechados logo em seguida. Ninguém era incomodado pelas autoridades brasileiras, nem mesmo Robson Marinho, homem de confiança do ex-governador tucano Mário Covas, titular de uma fortuna em contas secretas. Mesmo a iniciativa internacional de uma das maiores empresas do mundo, a Siemens, parecia não dar em nada. Até que, uma década e meia depois da primeira denúncia, as investigações começam a andar. Surgem nomes de governadores de Estado, parlamentares, tesoureiros, operadores financeiros e dezenas de envolvidos. 

Aparece, então, o vilão da história: José Eduardo Cardozo, o ministro da Justiça que entregou à Polícia Federal papeis que circulavam nos bastidores de políticos e empresários do país. Se tivesse engavetado o documento, Cardozo poderia ser acusado de prevaricação. Hoje, é acusado por participar de uma “trama sórdida” ao lado de um deputado estadual do PT e do presidente do Conselho Administrativo de Direito Econômico.

Na verdade, Cardozo deve ser elogiado. Mandou investigar uma denúncia de crime. Se há uma crítica a ser feita é outra: por que demorou tanto?

O episódio parece estranho mas não é. Faz parte de uma desigualdade política típica de uma sociedade dividida em 99% e 1%, na qual o acesso ao topo sempre foi muito estreito e difícil do que sugere a lenda de que vivemos numa terra de oportunidades. Para resumir, nosso subdesenvolvimento não foi improvisado. É obra de séculos, ensinava Nelson Rodrigues. Classe dominante numa sociedade subdesenvolvida é assim: domina mesmo quando não governa. As condições mudam, as facilidades se tornam menos óbvias. Mas através de mentes e fios invisíveis, mantém a capacidade de refazer os fatos, mudar a narrativa, inverter os papéis e alterar o fim da história enquanto ela está acontecendo.

O atraso econômico, a desigualdade social e a concentração de poder político se superpõem, conversam e se alimentam, atravessam gerações, se acasalam e se reproduzem. Dominam todas as instâncias políticas que não dependem do voto popular, a única forma de poder na qual, vez por outra, é possível expressar uma vontade resistência – frequentemente derrotada pelas baionetas, pela porrada e pelas regras eleitorais que autorizam o aluguel do Estado pelo poder econômico privado, que faz o possível para seduzir todos que queiram render-se a seus interesses.

Esse universo inclui as instituições que não dependem da vontade do povo, como as grandes universidades, a Justiça, o setor privado no sentido econômico, sejam sócios e parceiros internacionais, e também no sentido político, a começar pelos grandes grupos de comunicação. A verdade é que o 1% nem precisa conspirar para fazer valer seus interesses e vontades. Funciona no piloto automático, por um sistema de senhas, eufemismos e códigos ideológicos. Aquilo que se diz aqui se repete mais adiante, através de vozes que falam na mesma melodia e compasso. É onipresente a ponto de confundir-se com a natureza, num encantamento que só é possível quando se possui o monopólio da palavra – exercido como orquestra pelos meios de comunicação.

Neste ambiente, o escândalo do propinoduto é uma sombra inesperada no esforço de criminalização do condomínio Lula-Dilma em 2014. Manda calar a boca. Mostra que, além de dedicar-se a práticas lamentáveis, numa escala contínua e gigantesca sem paralelo conhecido na história brasileira, o PSDB paulista construiu uma blindagem sólida, que torna ainda mais difícil apurar e investigar qualquer denuncia – o que só agrava qualquer ilegalidade que já foi cometida. São varias raposas para tomar conta do galinheiro das verbas do metrô e dos trens urbanos.

E é por isso que até imagino que Cardozo pode ser chamado a explicar-se, no Congresso, ou lá onde for, antes mesmo que qualquer tucano emplumado, com o futuro político a beira do precipício, seja obrigado a dar explicações verdadeiramente necessárias e urgentes.

O esforço é elevar o clima de indignação, falar em aparelhismo sem constrangimento mesmo depois que se soube que o ministério público de São Paulo engavetou oito pedidos de informações internacionais do ministério publico da Suíça – elevando para um padrão internacional um comportamento patenteado pelo inesquecível Geraldo Brindeiro, aquele que engavetou até confissões de venda de votos na emenda que permitiu a FHC
disputar a reeleição.

É ridículo mas veja bem o que ocorreu na máfia dos fiscais da prefeitura.

Nenhum alto responsável por oito anos de descalabro e cobrança de propina, em São Paulo, foi localizado, investigado nem punido. O cerco se fechou em torno de Antônio Donato, o secretário da prefeitura de Fernando Haddad. Donato era um adversário notório e combativo das gestões anteriores, inimigo de qualquer aproximação com o então prefeito Gilberto Kassab. Só aceitou uma trégua por disciplina partidária, após uma luta interna renhida e pública. Só assumiu funções executivas depois que a turma já havia sido desalojada de seus postos, como resultado de uma campanha eleitoral na qual teve um papel fundamental. São credenciais que dão o direito de duvidar de qualquer uma das insinuações feitas contra ele por cidadãos em busca desesperada de uma boia de salvação, a quem a lei confere até o direito de mentir em legítima defesa. Já vimos este filme em 2005.

Depois que um protegido seu foi gravado em vídeo quando recebia propinas no Correio, Roberto Jefferson foi aos jornais, a Câmara e a TV falar do “mensalão.” A turma de 1% abençoou aquele delator benvindo e mudou a história. Quando Jefferson se desdisse, dizendo que era "criação mental," a história já fora modificada e reescrita. Sabe o que aconteceu com a turma dos Correios? Nada. O caso está parado até hoje.

O espetáculo do poder nessa escala é conhecido. Só não é preciso bater palmas. Basta abrir os olhos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

  Guilherme Arantes: "Brasil vai aprender a conviver com a liberalidade da Democracia"

Sugerido por Marco St.
Do Facebook de Guilherme Arantes
Me solicitaram sugestões a partir do texto que postei, sobre direitos em excesso, e deveres zero. A primeira sugestão é não desanimar e parar imediatamente com o discurso monótono do desalento, ceticismo, de ficar xingando o Brasil. O mundo é inteiro igual, o ser humano não é nada mais especial nos EUA, por exemplo, onde a sociedade é truculenta e onde O.J. Simpson não foi condenado pelo evidente assassinato da mulher, um escandalo na época.
Itália? porca miséria... uma politica de piadas. França ? berço da Democracia, está sempre guinando para a extrema direita, xenofobia, exclusões raciais e étnicas, oligaquia perversa. Japão? truculência total, escravidão e desumanidade no dia a dia. China e India, os novos milagres do mundo, sem comentários... É bom lembrar que se você olhar uma foto de 1940 do Largo do Café (como as que tem no Bar Brahma) voce pode pensar que era uma beleza, tudo limpo, as pessoas "decentes" , tinham "compostura" ...Voce não vai ver um preto, um mulato, um japonês sequer. Só um povo branco, burguês, de terno de casimira inglesa, de chapéu (muitos panamás) fumando charuto, algumas poucas mulheres de tailleur, uma sociedade "visível" completamente apartada da realidade. Onde estão os negros, ali ? Onde estão as massas do proletariado , invisível ? Olhe hoje. A inclusão não é uma conquista partidária, de uma corrente. Foi sangrenta, teve luta no dia a dia. Mas andou.
As pessoas até 30 anos atrás faziam piada de preto, de árabe, de judeu, de japonês - (é bem diferente que piada de português , porque esta não é piada étnica).
Hoje não tem mais graça , aliás, pra mim e pra os meus filhos, nenhuma graça.
Mudou.

No tempo da Ditadura (pouco tempo atrás) o samba que se ouvia nas paradas de sucesso era : "Do Lado Direito da Rua Direita...." (Originais do Samba, com Mussum e tudo...) Pode ? Para pra pensar...

A questão é que o Brasil agora vai aprender a conviver e lidar com a liberalidade da Democracia.

É ruim? Incomoda ver o povão ter sua expressão, as periferias, o gosto da maioria?
A mim, não incomoda.

É fácil ficar chamando as décadas de 60, de 70, de privilegiadas, porque havia "cultura popular de qualidade" - fácil porque era uma sociedade de exclusão!!!
A coisa complica quando voce precisa conviver com as diferenças.
Não troco o meu tempo PRESENTE por nada! Não me engano, o passado hoje parece doce porque está lá distante, já passou e está dominado na nossa cabeça, porque o passado é mais confortável, porque não implica em desafio, Parece doce, mas era escroto ! muito mais escroto.

Quem não estiver preparado pra conviver com a inclusão social, e quer a volta da aristocracia, está ferrado porque o mundo não quer mais o que já foi.
E eu quero o futuro.

No futuro, cada desalento, cada roubalheira que estourou na mídia, cada perversidade que é divulgada,cada êrro, cada acerto, cada confusão, cada discussão, cada controvérsia, tudo, mas tudo mesmo, terá sido um tijolinho na construção da democracia. Na História, nada se perde, e essa construção é lenta.

Temos que cuidar é pra não haver em hipotese alguma retrocesso de ARBÍTRIO. Essa a cagada histórica, porque o Brasil tutelado ficou infantilizado e parou no tempo da construção de sua democracia.
A violencia nas ruas é um sinal de tudo o que não queremos ver, uma anarquia que apetece tanto aos deslumbrados "revolucionários" moldados em outro tempo, década de 60 em que o quebra-quebra tinha o charme gauche da Contracultura.
Grande bosta de tempo ! Guerra Fria, exclusão, racismo, linha dura, roubalheira total, e ninguém podia abrir o bico.

Então, a melhor opção é lutar. Seguir adiante.

Mas se não é pra acreditar nas mentiras, se é pra se indignar, eu gosto ainda mais porque o caminho é esse.
Se é pra contestar, brigar todo dia, toda hora, melhor ainda.

Essa pedra só ficará redonda se rolar, bater, lixar, rolar, bater, lixar.
No fim, fica redondinha.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

Construtoras reduzem lançamentos e desovam estoques no terceiro trimestre


Muitas construtoras e incorporadoras de capital aberto reduziram os lançamentos e concentraram as vendas no terceiro trimestre nas unidades em estoque, segundo os balanços divulgados nos últimos dias.
Para o consumidor, se a estratégia das empresas se mantiver neste final de ano, poderá ser um bom momento para conseguir descontos.
Mas é preciso pesquisar, pois nem sempre um imóvel não vendido na época do lançamento terá um abatimento significativo no preço.
Antecipar prestações reduz custo do financiamento imobiliário
Um bairro com muita oferta, por exemplo, pode ter produtos com tipologias e padrões diferentes, sem que algum deles esteja "sobrando" no mercado, ainda que a venda seja mais lenta.
Nesse caso, o apartamento em construção pode ser mais caro do que um semelhante vendido na planta, já que foi se valorizando conforme as obras avançaram.

Zé Carlos Barreta - 10.abr.2013/Folhapress
Prédio em construção no Tatuapé, zona leste de São Paulo
Prédio em construção na zona leste de SP; unidades em estoque representaram maioria das vendas de algumas incorporadoras
A chance de fazer um bom negócio, porém, é bem maior quando o empreendimento foi entregue ou está perto de ficar pronto.
Isso ocorre porque, além de ter a facilidade de se mudar logo, o consumidor sai fortalecido, pois a empresa, que tem de administrar o imóvel, quer se livrar de todos os custos extras.
DESCONTOS
Segundo Luciano Guagliardi, diretor de Relação com Investidores da Brookfield, para definir o valor que será reduzido do preço original do imóvel, leva-se em conta a economia com o pagamento de IPTU e condomínio, além da depreciação do apartamento ao longo do tempo.
A companhia, afirma, não tem como política conceder descontos, e a redução no preço das unidades concluídas é estudada caso a caso.
No terceiro trimestre, os imóveis em estoque da empresa representaram 99,6% das vendas, em valor. Já os lançamentos caíram 93,1% no confronto com o mesmo período no ano passado.
Os imóveis em estoque também responderam por grande parte das vendas da Rodobens (85,5% do total), da Eztec (82,2%), da PDG (77,0%), da Even (75,0%) e da Cyrela (60,5%).
Editoria de Arte/Folhapress
"O foco das construtoras é trazer de volta a geração de caixa mais robusta, diminuindo lançamentos", afirma Felipe Miranda, analista da corretora Coinvalores.
"O setor passou por um processo de ajuste. Teve um período forte de lançamentos e todo mundo foi com muita sede ao pote", diz William Alves, analista-chefe da consultoria XP Investimentos.
Apenas três (PDG, Brookfield e Viver) das 15 maiores empresas na Bolsa com foco no segmento residencial tiveram prejuízo no terceiro trimestre.
Quatro (MRV, Rossi, Helbor e Trisul) apresentaram lucro menor na comparação com o mesmo período do ano passado, e a Tecnisa reverteu as perdas, registrando ganho de R$ 62 milhões.
Os destaques, entre as que tiveram aumento no lucro, foram Gafisa (226%), João Fortes (75%) e Eztec (49%). Even, Rodobens e CR2 também registraram alta. Já a Cyrela, que tem o maior valor de mercado, apresentou também o maior ganho (R$ 174,6 milhões).
17/11/2013 - 01h30
| DANIEL VASQUES
CLARA ROMAN
DE SÃO PAULO
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