quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma carta ao sr. Fernando Haddad

Prezado Sr. Fernando Haddad,
Lendo as notícias da semana a respeito do altíssimo índice de rejeição a sua gestão (que atingiu a casa dos 47%) eu me senti impelido, quase obrigado mesmo, a escrever essa carta aberta que estou publicando em meu blog.
Antes de qualquer coisa, vamos jogar limpo (diferente dos ditos ‘veículos imparciais de mídia’ que operam em nosso país): Minha inclinação política tende à esquerda, mas eu não sou petista. Aliás, acho que nunca serei “ista” para partido algum. Tenho procurado cada vez mais olhar para o candidato em vez de para o partido, renegando aquela noção de que “nenhum político presta”. Dito isso, uma confissão: Sou seu fã.
Votei em você sem saber quase nada a seu respeito, admito, simplesmente porque não queria de jeito nenhum ver José Serra prefeito de minha cidade. Mesmo assim, marchei nas ruas contra o aumento da passagem de ônibus, admito novamente, e durante esse período assumo ter ficado com raiva de você. Claro que eu fui injusto, aquele ajuste devia estar programado faz muito tempo (e você tinha acabado de chegar), mas você sabe como essas coisas são…
Minha primeira surpresa positiva veio logo depois: A polícia do Alckmin não parou de dar porrada, a tal reforma política anunciada pela Dilma em rede nacional acabou não acontecendo, mas as passagens abaixaram.
Desde então comecei a prestar mais atenção em sua gestão, e comecei a perceber que pela primeira vez desde que eu me lembro por gente, temos em São Paulo um prefeito que trabalha. E minha cidade começou a mudar: Artistas de rua – antes considerados marginais – ganharam seu espaço, os incríveis e criativos Food Trucks (que toda cidade grande do mundo possui e São Paulo proibia) foram autorizados e regulamentados, as ciclofaixas ganharam seu espaço e algumas delas foram promovidas a ciclovias, ganhamos várias praças com internet livre.
A sensação é que o paulistano começou, com sua ajuda, a recuperar a cidade, por anos seqüestrada por especuladores imobiliários e construtoras. Nossa querida São Paulo, que prometia virar um aglomerado asséptico de imensas avenidas conectando ultra-condomínios fechados a shopping centers, deu uma guinada para outra direção. Uma direção mais humana, e muito mais interessante e democrática.
Muitas das medidas – como a ampliação das faixas de ônibus e a clara prioridade que você tem dado ao transporte público – foram incrivelmente impopulares para certa camada da população. Taxistas furiosos pela proibição de trafegar pelas faixas (o que convenhamos, não fazia nenhum sentido) se juntaram aos descontentes. Suspeito que você sempre soube que seria assim, o que justificaria o lema de sua gestão: “Prefeitura de São Paulo: Fazendo o que precisa ser feito”.
Em uma democracia onde o povo escolhe seu candidato em turnos alternados de quatro anos, virou quase um clichê termos administrações focadas em resultados de curto prazo, concentrados em medidas que garantam a reeleição do prefeito para um segundo mandato. As pessoas se acostumaram com esse clichê, e determinam seus votos em função dele. O eleitor médio simplesmente não compreende o conceito de medida de médio-longo prazo, pois esse conceito nunca foi aplicado por aqui.
Respeito você como político e como profissional. Você aceitou a idéia de ser rejeitado, de ser repudiado, porque sentiu que estava fazendo o que precisava. Conquistou grandes inimigos ao aprovar o Plano Diretor Estratégico para a cidade na semana passada (as grandes construtoras e os grandes especuladores não vão deixar barato), mas fez isso mesmo assim, pois sem ele nossa cidade caminhava em direção a um colapso de mobilidade urbana, socioambiental e econômico. Qualquer pessoa com meio neurônio que tiver paciência de ler o PDE não terá alternativa senão concluir que ele vai ser positivo para a cidade.
Suspeito que muita gente que diz não gostar de você não sabe bem porque tem essa opinião. Vai praguejar alguma coisa contra o PT, papagaiada de uma VEJA da vida, ou então criticar as faixas de ônibus e como o transito piorou por causa delas (como se fosse possível reverter décadas de negligência ao transporte público em alguns meses).
A essas pessoas, gostaria de recomendar uma rápida pesquisa sobre as ações da prefeitura somente na ULTIMA SEMANA, conforme listado nas  “referências” no final do meu texto. As ações, reunidas em postagem da Carol Almeida (link do facebook abaixo), incluem a instituição de uma política municipal de segurança alimentar, a transformação da Chácara Jockey (169 mil m² no Butatã) em um grande parque municipal, parceria para a reabertura do cinema Belas Artes, a construção de uma usina de triagem de material reciclado, a instalação de contadores de passageiros de ônibus (para aumentar ou reduzir a frota conforme horários e rotas) e a aquisição de áreas para a construção de mais um Sesc (o Sesc Mercadão), entre outras coisas.
Sobre essa lista, e todas as outras medidas citadas em minha carta até agora, só posso dizer uma coisa: Obrigado. O seu índice de rejeição de 47% pra mim é um sintoma de como nossa cidade está doente, e como seus cidadãos estão alienados à própria realidade.
Não sou petista, também não sou “haddadista”. Mas continuarei votando em você, enquanto continuar governando para o futuro, e não em função de uma reeleição. Realmente espero que outros candidatos por aí, de outros partidos, sigam seu exemplo, e que as pessoas comecem a acordar pra vida e comecem a votar nos candidatos por causa de seus planos de governo, não porque uma certa revista mandou, ou porque demoraram 10 minutos a mais pra chegar em casa por causa de uma faixa de ônibus.
Acho que até 2016 ainda tem muito chão, e você vai conseguir fazer muita coisa positiva para a cidade. Espero que isso motive os futuros candidatos a fazer o mesmo, e espero que dê tempo de parte da população acordar e mudar de opinião, pois realmente gostaria de ver o que você faria com São Paulo em um segundo mandato.
Só te peço uma coisa: Não mude seu modus operandi. Não interrompa as medidas de médio e longo prazo por serem impopulares hoje. Não deixe de fazer o que precisa ser feito porque uma pesquisa assustadora foi publicada. Temos toda uma geração de eleitores vindo por aí, com um engajamento e uma cultura política que as gerações anteriores (filhas da ditadura) simplesmente não podem compreender. Faça uma gestão para essas pessoas…
E se em 2016 essa conscientização não tiver sido o bastante, e algum engravatado cheio de promessas vazias e nenhum plano de governo se sentar em sua cadeira, você poderá pelo menos dizer que você fez o melhor que pode. E que produziu mudanças significativas das quais todo paulistano poderá colher os frutos, mesmo tendo achado na época que não o faria.
Isso já é mais do que qualquer prefeito que tivemos em um passado recente jamais poderá dizer.
Obrigado e abraços,

Alguém ai fora.

REFERENCIAS: 

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