segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Declaração de voto

Extraído da seção comentários do Blog do LuisNassif

DECLARAÇÃO DE VOTO

Eu tive o privilégio de viver boa parte da minha juventude na Europa, graças ao cargo de diplomata do meu Pai. Deixamos o Brasil em 1961, depois de uma era de otimismo impulsionado por JK, que durante e depois do brilhante mandato foi tratado como um cão sarnento, que nem Lula e Dilma, hoje. Infelizmente, boa parte da classe média brasileira parece não suportar bem políticos com visão e compromisso com o País...
Pois bem, saindo orgulhoso do meu Brasil depois da epopéia desenvolvimentista, eu sempre fui humilhado na Europa por pertencer a um País repleto de miséria. Não havia igrejas, não havia escolas onde não houvesse um "projeto social" no Brasil, com uma foto de criança descalça, passando fome.
Tínhamos de engolir seca essa humilhação, pois correspondia a mais pura verdade! Como pode um país repleto de chão, de oportunidades, de riqueza, suportar tanto atraso humano, moral !
Que governo finalmente ia nos resgatar de tanta vergonha, de suportarmos ver coexistir a fome ao lado de riquíssimos bairros de Zona Sul, shoppings e condomínios? E de ver isso estampado em qualquer reportagem ou até mesmo guia turístico sobre o Brasil?
Esperei, lutei, esperei, lutei, esperei, lutei... Primeiro contra a ditadura; depois pelo aprofundamento da democracia; por projetos de qualidade no campo dos transportes...
Aguentei Sarney, Collor; despertei minhas esperanças com a vinda de FHC, o tão garboso intelectual da esquerda. Aguentei (e, dadas as circunstâncias, até compreendi) as desilusões com esse príncipe.
E, finalmente, receando golpes por parte de uma elite que não é capaz de ceder um milímetro de seus privilégios, veio o Lula. Ocorreram muitas coisas negativas que não preciso lembrar, eis que é conhecimento de todos; mas aconteceu o principal: o decidido combate contra a injustiça social, contra a pobreza, que fora sempre o flagelo moral da minha juventude! O regate moral desse nosso País diante o mundo, que reconheceu e aplaudiu nosso rumo! O fim da vergonha que me atormentou durante toda minha juventude!
Finalmente, pude voltar à Europa, por ocasião de dois estágios de pós-doutoramento (onde, mais uma vez, me dediquei buscar soluções que ajudassem ao desenvolvimento de meu País: PPP, em Paris; e Engenharia Territorial, em Berlim). Ali, só ouvi elogios, admiração, até, por nossa nação. Finalmente, podia me orgulhar, finalmente era respeitosamente acolhido, só por ser brasileiro.
Claro, certos modelos de política econômica já se esgotaram: por ordem cronológica, o socialismo ortodoxo (1989), o neo-liberalismo (2009) e o neo-keynesianismo (2014). Hoje, não é apenas o Brasil que busca freneticamente a porta de saída dos paradigmas dos Séculos XIX e XX, é o mundo todo! Ainda não se chegou a uma solução, mas que deverá aparecer brevemente (as discussões são muito vivas, a respeito!).
E temos duas candidaturas que falam de mudança, mas não são, por ser filhos desta nossa era de incertezas, capazes de definir claramente o novo a ser construído. Analisemos as duas:
a) Aécio: com todo o respeito que tenho pela obra de regate, necessário, mas doloroso e humilhante, da nossa instabilidade econômica e hiperinflacionária na era fernandina, essa candidatura tucana não aporta nada de mudança. E sim, a volta para os remédios da década de 90, aceitáveis naquela época de absoluta ditadura intelectual do pensamento único do neoliberalismo (que em parte até comunguei), mas totalmente falidos no mundo pós-Lehmann.
Fofocas eleitorais e maledicências nojentas à parte, para mim a grande falha dos tucanos não foi o que fizeram durante o seu período no Poder, e sim o que deixaram de fazer depois. Lembro que os protagonistas do PSDB tiveram um forte papel na redemocratização desse País, e seria de se esperar que, fora do Poder, pudessem reanalisar sua estratégia e desenvolver uma alternativa viável e não tão antissocial, para os rumos do nosso País.
Só que isso não aconteceu. A campanha de Aécio é vazia de propostas (não me venham com o longo texto de seu programa, até porque papel aguenta tudo). Isso ficou claro sobretudo nos debates. Promete, ao invés, um cavalo-de-pau deflacionista, que provocará grandes estragos na nossa economia, na nossa já tão combalida indústria.
As propostas no setor das políticas sociais e de educação nada têm de inovadoras. Só prometem continuar o que já ocorre, quando muito adornadas com palavras puramente marqueteiras (“re-estatização” da Petrobrás; transformação do Bolsa-Família em “política de Estado”, etc.). Mas, qual o avanço, já cobrado nas ruas, em 2013? A volta dos contratos de concessão na exploração do Petróleo irá beneficiar ou comprometer o uso dos recursos para a educação? Silêncio total! A redução dos bancos públicos irá beneficiar como, a economia, os tão cobrados investimentos na infraestrutura? Silêncio total. O que Aécio falou sobre as infraestruturas?
Vamos para Dilma: seu neo-keynesianismo demonstra claros sinais de esgotamento. Embora tenha deslanchado toda uma política de concessões e parcerias, nos falta ainda um planejamento territorial que faça despertar mais fortemente as economias regionais, sobretudo na periferia econômica. Em suma, as estratégias para a retomada do crescimento estão ainda muito tímidas. Problemas à vista!
Entretanto, volto ao sonho da minha juventude: o combate decidido contra a pobreza. A saída gloriosa, mas silenciada, do nosso País do mapa da fome!!! O forte investimento em habitação social, eletrificação rural, a ampliação radical ao ensino técnico e superior por diversos caminhos; o aumento decidido do poder aquisitivo, sobretudo no interior, viabilizando inclusive a economia e as finanças públicas dos municípios (como ouvi da própria boca de muitos prefeitos). E finalmente ver o povo colorido auto-confiante, fazendo planos para um futuro “diplomado”.
Que o Brasil precisa mudar, é óbvio. Mas em que direção? Como é que esses avanços históricos vão ser preservados, sobretudo por um candidato que não os menciona nos debates?
Assim, confirmo meu voto em Dilma, mas com um alerta: precisamos ser tremendamente criativos para buscar novos caminhos que não sejam a continuidade do presente ou a volta ao passado. Temos de adotar projetos propulsores concretos, não apenas de uma ou outra indústria, de infraestruturas, mas sobretudo que despertem de forma sistêmica os potenciais de todas as regiões, de todas as classes sociais.
E, claro, aprofundar mais a construção de uma nova sociedade, não apenas mais justa no quesito distributivo, mas, sobretudo, no empoderamento das famílias, das empresas e das agências públicas. Na capacidade de cada cidadão desenvolver e implementar projetos de vida, de empreendimentos, de carreiras; das empresas de conceber novos projetos de negócio e investimento; e do Poder Público, de políticas públicas que facilitem os projetos dos cidadãos e de suas organizações empresarias e não-empresariais.
E aí vai meu segundo alerta: terminou a era das políticas de gabinete, do piloto automático. Onde não são aceitas nem visitas dos representantes da sociedade. Ao invés, os novos rumos só virão à tona se houver um diálogo amplo com a sociedade, e um encorajamento para uma radical participação.
Isso implica também o fim da selvageria deplorável vista nos últimos dias. Segunda-feira, todos deverão enterrar o machado de guerra e voltar a construir o País. As divergências, que certamente haverá, devem ser expressas pelos caminhos e espaços da democracia, não cabendo questionamento aos mecanismos institucionalizados.
Eu tenho minhas razões para ter votado em Dilma. Compreendo as razões dos que optaram por Aécio. Mas não podemos nos dominar pelas paixões e adentrar sendas que sabemos onde elas vão parar.
Bom voto a todos!
recolher
Joaquim Aragão

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