2015 - um ano de maus sentimentos, por Sérgio Saraiva

Esperando a meia-noite, olhos sujos no relógio da torre, devo seguir até o enjoo? O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. Nunca o poema de Drummond “ A flor e a náusea” me pareceu tão cotidiano e tão apropriado para descrever os sentimentos deste ano de 2015.
Brasil - maus sentimentos
Por Sérgio Saraiva
Duas mãos e os sentimentos deste 2015:
A intolerância
“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”.
Quem, hoje, contestaria as observações da professora Marilena Chauí?
São de maio de 2013.
Assistimos a uma série de agressões a pessoas relacionadas ao PT. De Guido Mantega em um hospital a Chico Buarque de Holanda nas ruas do Leblon, passando por Padilha, Suplicy, pelo Stedile e pelo ministro José Cardozo. Devo ter esquecido alguém.
Como agressores, as mesmas pessoas brancas, de classe média, o mesmo filminho de celular, a mesma divulgação no youtube e a mesma satisfação idiotizadas dos linchadores que se creem defensores da Pátria. Os mesmos idiotas agredindo refugiados.
A Pátria mãe hostil.
Nas suas domingueiras, nas quais buscavam derrubar no grito um governo democraticamente eleito, as figuras patéticas de Batman e peladonas. Fartos, bateram em panelas, transformando-as em penicos. A professora Marilena poderia ter acrescentado “ridícula” a sua qualificação da classe média brasileira.
Frases em inevitável mau inglês pedido “intervenção militar institucional” e lamentando o não assassinato da presidente quando ela era uma jovem prisioneira da ditadura.
Na imprensa, o apoio e o incentivo a essa ignomínia.
O oportunismo
O que une Regina Duarte, Lobão, Roger do Ultraje, Dinho Ouro Preto, Fabio Junior e Alexandre Frota?
São artistas que encontraram um novo produto para buscar alguma sobrevida às suas carreiras decadentes – o anti-petismo. A classe média branca encontra as suas trilha sonora e “expressão artística”.
A traição
E por que não chamar Joaquim Silvério de Marta, Michel ou Hélio, todos dos Reis?
A hipocrisia
Eduardo Cunha e Augusto Nardes – relator do TCU.  O que têm em comum?
Respondem a processos por corrupção e comandam a tentativa de impeachment da presidente a quem não consta que um dia tenha se apropriado de um centavo de dinheiro público.
Nenhuma novidade, há algum tempo, um tribunal popular igualmente optou por Barrabás – consta que ele também seria zelote.
E que outro designativo dar às posturas moralistas de Aécio Neves frente a seus aeroportos e favores aéreos a amigos bem nascidos, seus fins de semana começando nas quintas-feiras. Isso para ficar no comprovado. Patrimonialismo temporão, talvez?
Quantos nomes, quantos homens olhando para as câmeras e bradando pela ética em defesa da coisa pública. Atrás das câmeras, a mesma imprensa que conhece o passado desses homens. O silêncio cúmplice da mesma hipocrisia.
A impostura.
Não acredito que os integrantes da Operação Lava Jato sejam impostores. Muito menos que seus resultados sejam uma farsa. Mas não há como não pensar na palavra impostura, quando se nota que as ações dessa operação estão limitadas ao que possa ser imputado ao PT.
De repente, uma gravação feita pelo filho de um dos presos – caso de Cerveró, uma frase solta em um depoimento – casos de Pedro Barusco sobre quando começou a receber propinas ou de Youssef sobre as relações de Aécio e Janene, ou ainda outra operação da Polícia Federal – caso da Sangue Negro mostram que há um universo paralelo de corrupção que poderia, mas não está sendo investigado. Como imaginar que tais eram de desconhecimento da Lava Jato?
Não viram, não quiseram ver ou não interessava ver?
Essas perguntas se impõem, até porque, lendo se o plano de voo da operação – traçado pelo juiz Moro, em 2004, a autoridade para as suas ações parece ser buscada muito mais na escandalização midiática do que no Código de Processo Penal. A mídia tem lado, e não me agrada pensar que a Lava Jato tivesse escolhido para investigar apenas o lado que interessava.
Como não pensar em impostura quando uma revista semanal cria ilações sobre o ex-presidente Lula, tais ilações são tomadas como denúncia formal por um procurador do Ministério Público e abre-se uma investigação baseada em não mais que fumaça engarrafada? Ou nas reportagens sobre palestras, viagens de negócios ou na simples compra financiada de um apartamento que, por fim, não se realizou, mas mesmo assim é investigada? No Brasil de 2015, a caça a Lula foi liberada pelo IBAMA.
E voltamos a assistir a Polícia Federal fazendo “visitas noturnas”.
Como não pensar em impostura, quando cria se uma nova categoria de humanos? Além do homo sapiens, o homo lulenses. E tomem-se doses cavalares de “amigo de Lula”, “filho de Lula”, “nora de Lula” e até do filho do irmão da ex-mulher, já falecida, de Lula – o “sobrinho de Lula”.
“Vigilância Sanitária investiga intoxicação com ensopado de lula”.
Depois de tudo, como não pensar em impostura quando da declaração do Ministro da Justiça: “ninguém está acima da lei”?
A violência.
Não bastasse-nos os canalhas comuns, espancando mendigos ou esmurrando meninas, a questão social voltou a ser questão de polícia.
E vimos trabalhadores espancados pela polícia de Eduardo Cunha, em Brasília, e vimos professores serem espancados pela polícia de Beto Richa, no Paraná e vimos meninos e meninas serem espancados pela polícia de Alckmin. Polícia essa que matou como nunca ou como sempre.
Pelo mundo, sextas feiras de trevas.
Bem vindo, 2016 – brasileiro, profissão esperança.
Receba de herança as nossas esperanças contidas na Lei de Direito de Resposta e na decisão de proibição do financiamento das campanhas eleitorais pelas empresas privadas.
Não sei o que restará delas, no seu dezembro.
Hoje, são como duas flores que nasceram no asfalto. E ainda existem outras pequeninas que talvez sobrevivam, mesmo em ambiente tão inóspito às eflorescências. Apelo aos amigos, se apeguem às que lhes venham à memória. Desbotadas, iludem a polícia, são feias, mas, contudo, são realmente flores deste ano de náuseas e maus sentimentos.
 Do blog do Luis Nassif