quarta-feira, 23 de março de 2016

Como em suas melhores épocas, diante de uma manifestação muito maior que o esperado, o ex-presidente pediu para que se respeitasse a democracia e o voto.

Contra o golpe, com uma multidão nas ruas

Como em suas melhores épocas, diante de uma manifestação muito maior que o esperado, o ex-presidente pediu para que se respeitasse a democracia e o voto.


Darío Pignotti, de Brasília, para o Página/12
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
“Não vai ter golpe”. Um Luiz Inácio Lula da Silva inteiro, inspirado, de camisa vermelhíssima, falou ontem em São Paulo diante de uma multidão, possivelmente maior do que a esperada pelos próprios organizadores do ato, e que certamente caiu como um balde de água fria naqueles que davam por certa a queda da presidenta Dilma Rousseff. “Na terça, eu vou levar para a Dilma uma foto deste ato, para que ela saiba que aqui, em São Paulo, há muita gente querendo que ela governe este país, que não vai ter golpe”, disse Lula ao encerrar seu discurso, e a multidão respondeu unânime “não vai ter golpe, não vai ter golpe!”.

O ex-presidente, que na quinta foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil pela presidente Dilma Rousseff, comentou que espera poder exercer o cargo, apesar da enxurrada de medidas cautelares disparadas por juízes e um ministro do Supremo Tribunal Federal, que parecem (e na verdade estão) sincronizadas para impedir que ele atue no gabinete.

“Quero dizer para vocês que para aqueles que nós temos que convencer aqueles que não gostam da gente que a democracia é acatar o resultado do voto da maioria do povo brasileiro”, afirmou Lula, para uma plateia de militantes do PT, da Central Única dos Trabalhadores e do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra, entre outros movimentos sociais. Os responsáveis pelo evento calcularam cerca de 500 mil pessoas na Avenida Paulista. A Polícia Militar, que obedece à oposição, cifrou em menos de 100 mil.

Centenas de milhares de pessoas se mobilizaram nesta sexta pelas principais ruas e avenidas das principais cidades do Brasil, em defesa da democracia. As multidões se repetiram em cidades tão distantes como Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife, onde os manifestantes pronunciaram seu respeito à democracia, contra o golpe que está em marcha.


“Eu perdi as eleições de 1989, 1994 e 1998. Em nenhum momento eu sai às ruas para protestar contra quem ganhou… Agora, eles achavam que iam ganhar (em 2014), não imaginaram que a Dilma ganharia deles no segundo turno. Eles que se dizem tão educados, não souberam aceitar a derrota, e faz um ano e três meses que están obstruindo o governo da Dilma”, disse Lula. A oposição “tenta dar um golpe contra a Dilma, para antecipar as eleições. Nós, que lutamos pela democracia, não vamos a aceitar um golpe”, clamou o ex-presidente.

Em seguida, Lula fez uma menção às marchas a favor do impeachment, realizadas no domingo passado, onde as cores dominantes eram o amarelo e o verde, e não se tolerava alguém vestido de vermelho. “Embora vistam a camiseta da seleção, eles não são mais brasileiros que nós, que preferimos levar roupa vermelha, como a cor do sangue de Jesus Cristo”.

“Eles – continuou, e sua voz parecia um trovão – não gostam quando aumenta o dólar e não podem viajar para Miami, mas nós queremos viajar aqui mesmo no Brasil, para Garanhuns ou para a Bahia”.

A comparação entre “eles e nós” eletrizou o público, que cantava o velho grito “olêêêêê, olê olê olááááá… Lulaaaaa, Lulaaaaa”.

Nos próximos dias, análises mais ponderadas, abastecidas de números detalhados, permitirão medir a real dimensão política da concentração realizada nesta sexta 18/3, na Avenida Paulista e em diversas outras capitais do Brasil. Minutos depois de iniciada a desconcentração do público na principal avenida de São Paulo, surgiu uma evidência: Lula confirmou ser o único político brasileiro capaz de convocar tamanha quantidade de pessoas.

O contraste entre o ex-presidente torneiro mecânico com os cardeais da oposição não deixa dúvidas. Cinco dias antes do ato das esquerdas, quando centenas de milhares de opositores de Dilma e Lula lotaram a mesma Avenida Paulista – entre os quais havia milhares de simpatizantes da ditadura militar – impediram o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o senador Aécio Neves, de realizarem seus discursos. Ambos foram expulsos da manifestação sob o grito de “corruptos”.

Alckmin e Neves são dois caciques do PSDB, partido que lidera a oposição, o mais interessado em derrubar a presidenta Dilma Rousseff, para chegar ao poder pela porta dos fundos. Mas nenhum deles goza da simpatia popular, nem mesmo entre as classes médias, que são a massa de manobra do plano golpista.

Longe de qualquer tipo de pluralismo, a Rede Globo de televisão, também força opositora, que havia transmitido ao vivo todas as horas da mobilização pelo impeachment, não concedeu igual cobertura ao discurso de 24 minutos de Lula, durante o qual a emissora preferiu levar ao ar uma telenovela.

Ainda assim, um dos colunistas políticos do diário O Globo, Jorge Bastos Moreno, aceitou que o evento realizado na frente do Museu de Arte de São Paulo e em outras 25 capitais foi maior do que o esperado pela direita. “É muito significativa a reação petista, mostra que o país está dividido, é surpreendente o número de manifestantes a favor do governo que estão nas ruas do país… isso foi uma ducha de água fria para a oposição”, analisou o jornalista global.

O líder do Partido dos Trabalhadores adotou um claro tom de crítica ao golpe, dar nomes aos responsáveis pelo plano para derrubar Dilma Rousseff, algo que ficou a cargo de outros oradores.

Lula contou que quando aceitou o convite da presidenta para ser parte do gabinete, disse a ela que “eu não vou exigir muito de você Dilma, só quero que você sorria dez vezes por dia para governar o país com tranquilidade”.

No início do seu discurso, ele confessou estar emocionado pela impressionante quantidade de público reunido na frente do MASP, e anunciou que chegava ao governo de Dilma com ânimo de voltar a ser o “Lulinha Paz e Amor”, apesar dos ataques recebidos cotidianamente.

O último deles foi anunciado depois do ato, pelo ministro do STF, Gilmar Mendes, um declarado simpatizante do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que voltou a suspender a nomeação de Lula como ministro. Ele também autorizou o juiz Sérgio Moro, o personagem mais admirado pela oposição, a retomar as rédeas da investigação sobre Lula, com relação ao escândalo de corrupção na petroleira Petrobras. Mais cedo, um tribunal de Brasília e outro do Rio de Janeiro haviam anulado as decisões que suspendiam a nomeação do líder do PT, reabilitando Lula a exercer o cargo ao qual havia jurado, mas somente durante o lapso de algumas horas. O tribunal regional da capital do país havia dado lugar à apelação apresentada pelo governo brasileiro, que argumentou “falta de imparcialidade” por parte do juiz Itagiba Catta Preta Neto, do Tribunal Federal de Brasília, outro aberto partidário da oposição e declarado eleitor do ex-candidato presidencial Aécio Neves.

Desse cenário, se observa que o partido dos juízes radicalizou seu plano de choque e proscrição contra Lula. Sérgio Moro, na quarta-feira passada, grampeou uma ligação telefônica entre Lula e Dilma, uma hora depois entregou a gravação aos grandes meios, que a reproduzem insistentemente, para estimular um setor ensandecido da sociedade, que foi às ruas outra vez, exigindo a queda do governo.

“Moro grampeou a democracia quando invadiu a presidenta Dilma. Moro tem que ser castigado, mas nós dizemos daqui: golpistas, não passarão”, bradou o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vágner Freitas, aplaudido por um público quase unanimemente vestido de vermelho. Minutos depois, foi a vez de Lula tomar a palavra.

Pela manhã, Dilma havia investido contra as ações ilegais do juiz.

“Em muitos lugares do mundo, quem grampeia (as ligações de) um presidente vai preso, se não tem autorização da Corte Suprema… Grampeie (o telefone) do presidente dos Estados Unidos para ver o que acontece”, desafiou Dilma.
Do site Carta maior do jornalista Mino Carta

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