terça-feira, 15 de março de 2016

Lula não é réu primário ou é?

A luta do líder sindical Lula nunca foi fácil



Lula não é réu primário veja pelo histórico da luta dos metalurgicos


Em um trecho de uma entrevista de 1981, Lula, referindo-se aos metalúrgicos do ABC: “No ano de 1978 acho que nós não passamos uma única semana sem fazer greve até dezembro. Fazíamos duas, três greves por semana. Era greve por qualquer coisa, deu a louca no mundo!”(DANTAS, 1981, p.44, apud TOMIZAKI, 2006, p.153)
O então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, durante greve dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP)
O então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, durante greve dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP)
O Estádio Primeiro de Maio – antes conhecido como Estádio Vila Euclides – ficou nacionalmente conhecido ao final da década de 1970 ao ser palco das assembleias das greves dos metalúrgicos. Esta onda grevista, de acordo com Tomizaki (2006), deu inicio a um processo de redefinição do espaço social e político dos metalúrgicos na sociedade brasileira, pois os trabalhadores, num movimento de autoconstrução, criaram suas próprias práticas de luta e se movimentaram para serem ouvidos (TIBLE, 2013).
A partir da década de 30 do século XX, com as políticas desenvolvimentistas de Getúlio Vargas, o Estado de São Paulo, mais especificamente a região metropolitana da cidade de São Paulo, se torna o principal polo econômico da América Latina (TIBLE, 2013). Há nesta época um processo grande e forte de urbanização das cidades, que de acordo com Moraes (2013) transforma o cotidiano da sociedade, por conta das novas moradias, direitos trabalhistas, infraestrutura, poluição, acentuação da desigualdade social e etc. Posteriormente com Juscelino Kubitschek, nos anos 50, o plano de metas traz para o Brasil as indústrias automotivas, que no futuro serviriam como centro das manifestações e greves dos operários.
Em 1964, ocorre golpe de Estado civil-militar e as primeiras medidas da ditadura são intervir nos sindicatos, proibir greves e instaurar a censura. No final dos anos 60 e início dos anos 70 ocorre o famoso “milagre econômico”, ou seja, houve nesta época um forte investimento na indústria automobilística e em construção civil, assim, ao final da década de 70, de acordo com Tible (2013), haviam 400 mil metalúrgicos empregados em mais de dez mil empresas na Grande São Paulo, contudo a dívida externa e a inflação estavam altíssimas, o que impedia a melhora da condição de vida de muitos brasileiros.
A opressão e a exploração dos burgueses para com os operários das fábricas fizeram com que, mesmo com a represália e a censurado Governo Federal, estes tomaram consciência de classe e se uniram ao seu Sindicato em busca de condições melhores. Assim, clandestinamente dentro destas organizações houve um trabalho minucioso para ganhar espaço e força, como por exemplo, em São Bernardo do Campo e em Diadema, a resistência dos operários e a atuação dos sindicatos se unem e atuam em ações coletivas como sabotagens, protestos e greves. O Sindicato de São Bernardo assumia as lutas e reivindicações dos operários, desta maneira, a classe dos trabalhadores ia cada vez mais se construindo ao longo de cada ato (TIBLE, 2013).
Fotógrafo (sobre o cercado) registra choque entre manifestantes grevistas e tropa da Polícia Militar, em São Bernardo do Campo (SP)
Fotógrafo (sobre o cercado) registra choque entre manifestantes grevistas e tropa da Polícia Militar, em São Bernardo do Campo (SP)
Em 1974, há uma série de mobilizações por reajustes salariais. O inicio dos movimentos sindicais dos metalúrgicos havia começado, e ao longo dos anos foi tomando força e corpo. Em 1978, Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, declara que os patrões só escutariam a voz dos trabalhadores quando o barulho das máquinas cessassem, e então é deflagrada a primeira greve operária.
Durante a passagem do poder militar de Ernesto Geisel para João Figueiredo, em 1979, mais de 50 mil trabalhadores metalúrgicos decidiram entrar em greve e paralisar o trabalho (SANTANA, 2008). A paralisação era considerada ilegal, mas mesmo assim, com o passar dos dias mais e mais trabalhadores se juntaram ao movimento. É neste momento que o Estádio Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, se torna palco das assembleias dos operários das empresas Volkswagen, Mercedes, Ford, Metagal e Brastemp. Foi também neste Estádio, que os trabalhadores liderados por Lula recusaram a proposta do Ministério do Trabalho.
No ano seguinte, no dia 1º de Maio, com o apoio da Igreja Católica, mais de 150 mil operários foram em passeata até o Estádio Vila Euclides, onde aconteceria um dos maiores atos políticos, com a presença do Bispo Dom Cláudio Hummes e do Presidente do Sindicato Lula, que deflagrou a greve novamente (MORAES, 2013).
A partir deste histórico de lutas e vitórias sindicais era de se esperar que o Estádio 1º de Maio – um dos cenários do movimento – tivesse alguma importância ou significado para a cidade de São Bernardo e para os metalúrgicos, afinal foi lá que muitas decisões e manifestações importantes para a classe. Entretanto, atualmente no local, não há nenhuma sala reservada para este tipo de memória, deixando as marcas daquelas importantes lutas apenas na história.
Metalúrgicos rejeitam a proposta de volta ao trabalho como condição para negociação, no campo de futebol da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP)
Metalúrgicos rejeitam a proposta de volta ao trabalho como condição para negociação, no campo de futebol da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP)
De acordo com Domingues (2011) cultura seria tudo o que pode ser aprendido em uma sociedade, assim, o que foi vivido no final dos anos de 1970, seria também cultura. A movimentação da classe dos metalúrgicos mudou a organização fabril, e deu uma vitalidade aos sindicatos, que se encontravam mortos desde a implantação da ditadura. Contudo seria somente porque estes atos foram realizados por uma camada dita “não erudita”, que as memórias deste movimento não foram materialmente preservadas? Não podemos afirmar isto. É fato que muitas das vitórias obtidas com as greves foram mantidas e melhoradas, contudo, na própria cidade, não há um bom lugar que guarde recordações daqueles momentos históricos, o que leva a crer que a cultura popular não é valorizada. Temos a definição de cultura popular como a cultura que “consiste em todos os valores materiais e simbólicos produzidos pelos extratos inferiores, pelas camadas iletradas e mais baixas da sociedade” (DOMINGUES, 2011, p.403).
Deste modo, é triste pensar que esta cultura gerada pelos metalúrgicos do final de 70, início dos anos 80, não foi devidamente preservada nem dada a devida importância pela sociedade.
REFERÊNCIAS
DOMINGUES, Petrônio. Cultura Popular: As construções de um conceito na produção historiográfica. História, São Paulo, v. 30, n. 2, p.401-419, 2011. Disponível em: . Acesso em: 07 ago. 2013.
MORAES, Maria Blassioli. Movimentos Sociais e o Processo de Urbanização.Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2013.
SANTANA, Marco Aurélio. Entre a Ruptura e a Continuidade: Visões da história do movimento sindical brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 14, n. 41, p.103-120, out. 1999. Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2013.
TIBLE, Jean. Lutas Operárias em São Paulo e no ABC nos Anos 70. Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2013.
TOMIZAKI, Kimi. A Herança Operária entre a Fábrica e a Escola. Tempo Social, São Paulo, v. 18, n. 1, p.153-177, jun. 2006. Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2013.
VALE LEMBRAR QUE HÁ MAIS IMAGENS NO POST “IMAGENS: MOVIMENTOS SINDICAIS”

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